Fitoterapia chinesa e medicamentos: Como lidar com possíveis interações?

fitoterapia chinesa e medicamentos

O estudo das interações entre fitoterapia chinesa e medicamentos na biomedicina convencional é um campo relativamente inexplorado e é altamente relevante devido à experiência crescente com ambas as práticas. As interações podem ser positivas ou negativas, no caso de alteração da eficácia de medicamentos.

A consciência das implicações da “ca medicação” deve ser tomada em conta, pois existe ainda o equívoco de que as plantas medicinais sendo naturais são inofensivas. A fitoterapia é muito poderosa e os resultados observados nas nossas consultas provam isso a cada dia.

Sabemos que numerosas moléculas e princípios ativos de medicamentos derivados de plantas, são cada vez mais estudados para a farmacologia. Além disso, Subhuti Dharmananda (2000) lembra-nos de que a investigação recente demonstrou que a própria uva pode alterar o metabolismo de certos fármacos (nifedipina, felodipina), o alho é antagonista da varfarina (anticoagulante) e que o leite impede a absorção de tetraciclina (antibiótico). Também nos convida a analisar as interações da fitoterapia chinesa e medicamentos a partir dos dados obtidos numa investigação, mas também do senso comum, quando é muito difícil investigar as interações de todos os alimentos e medicamentos com remédios naturais.

Vejamos alguns exemplos de possíveis interações da fitoterapia chinesa e medicamentos na seguinte tabela:

Tabela 1. Exemplos de plantas chinesas e possíveis interações com fármacos (1)

PLANTAS CHINESAS FÁRMACOS E POSIVEIS INTERAÇÕES
Radix Ginseng (ren shen) Corticosteroides e estrogénios: potencialização de efeitos.Antidepressivos (tais como sulfato de fenelzina) e varvarina: diminui a eficiência.
Rhizoma Zingiberis (sheng jiang, gan jiang) Sulfa guanidina (antidiarreico, infeções intestinais): aumenta a absorção.
Radix Angelice sinensis (dang gui) A varfarina (anticoagulante) pode provocar sangramento.
Radix Salviae (dan shen) A varfarina (anticoagulante) pode provocar sangramento.
Radix Astragali (huang qi) A ciclosporina azatioprina, metotrexato:pode impedir os efeitos imunossupressores
Radix Bupleuri (chai hu) fármacos ansiolíticos: potencialização de efeitos
Radix Glycyrrhizae (gen cao) Corticosteroides e diuréticos de tipo tiácidas:aumentar os efeitos.Digitalis e outros glicósidos cardíacos:Aumentam a sensibilidade a estes fármacos.

Os medicamentos mais sensíveis a tais interações são anticoagulantes, anti-hipertensivos, antidiabéticos e antidepressivos.

A medicina tradicional chinesa pode influenciar a desaceleração ou aceleração do metabolismo de um fármaco, a sua biodisponibilidade por meio da diurese, absorção intestinal através de reação química ou aceleração do trânsito intestinal, levando a uma diminuição nos níveis do fármaco no sangue. Em vez disso, as plantas antidiuréticas, no caso de aumento da absorção intestinal ou diminuição da eliminação via renal, poderiam aumentar a biodisponibilidade e o efeito de um determinado fármaco.

As interações entre a medicina tradicional chinesa e fármacos não se limita a qualquer interação entre dois componentes químicos (inibição, potenciação, ou reação tóxica), mas sim, em explorar a possível influência de planta ou substâncias: aumentando ou diminuindo a quantidade de medicamentos na corrente sanguínea, afetar a sua absorção no trato gastrointestinal, como para estimular a produção e a atividade de enzimas que impedem a sua eliminação (ADME), interferir com a biodisponibilidade e, eventualmente perturbar a sua eficácia ou promover a ocorrência de efeitos adversos.

Da mesma forma, a nível farmacodinâmico, algumas substâncias de fitoterapia podem produzir efeitos antagónicos aos de um fármaco, reduzindo o efeito deste ou produzir efeitos sinérgicos e potenciar os efeitos do referido fármaco (sem aumentar a sua dose circulante).

Tabela 2. Diagrama das interações potenciais da fitoterapia chinesa com farmacocinética e farmacodinâmica convencionais

Fármacos

  • Farmacocinética
  • Farmacodinâmica
  • Sinergia – antagonismo
  • Efeitos secundários
  • Compensação –  potencialização

 

Fitoterapia chinesa

  • nos casos em que a margem farmacêutica é mais sensível, requer um acompanhamento mais próximo por parte do terapeuta, recomenda-se: • conhecimento detalhado do tratamento convencional.
  • avaliar os efeitos de energéticos dos fármacos (lesão de Yin, do sangue …) e levá-los em conta na definição de um padrão de energético global.
  • definir o tratamento da medicina tradicional chinesa.
  • organizar o seguimento do paciente durante a ca medicação.

 

Tabela 3. Proposto interacções do protocolo de pesquisa, esquema geral de desenvolvimento da tratamento en Farmacopeia Chinesa (6)

Biomedicina – diagnóstico

MTC avaliação do estado de energiauso de fármaco convencionalQue fármacos?base de dados –  interaçõesfarmacocinética farmacodinâmica – sinergia – antagonismoefeitos secundários – compensação – potencializaçãotratamento definitivo da farmacopeia chinesa vs. recomendações
a monitorização do paciente e observação do tratamentoAvaliação de potenciais interaçõestratamento ideal da fitoterapia chinesaQuais componentes e mecanismos de ação?

Também é interessante:

  • Pesquisa na literatura científica sobre possíveis interações:”Antipsicotic e erva-fármacos interações” em bases de dados tais como PubMed (http: //www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/)o em Cmjournal (http://www.cmjournal.org/)
  • relacionar os mecanismos de ação ou funções de ervas selecionadas da farmacologia (http://alternativehealing.org/chinese_herbs_dictionary.htm)
  • para avaliar a influência desses mecanismos de ação na farmacocinética e farmacodinâmica nos medicamentos. Em caso de intervenção a nível farmacocinético, separar a toma de plantas de pelo menos 1 a 2 horas após a toma do medicamento, enquanto que no caso de impacto a nível de farmacodinâmica, evitar reações sinérgicas ou antagónicas.

Subhuti Dharmananda (1) coloca em perspetiva os tipos de interações que podem ocorrer e a informação que o doente deve receber nestes casos.

Tabela 4. Os tipos de interação e de dados do paciente de acordo SubhutiDharmananda (2000) (1)

Tipo do Interações Recomendações ao Paciente
A inibição pela união com um fármaco de absorção de fármacos desencadeando baixos níveis do fármaco. Tomar as plantas pelo menos 1h ou 1h30 antes ou depois do fármaco.

 

A inibição por trânsito rápido da absorção do fármaco desencadeando baixos níveis do fármaco. Tratar a diarreia e evitar o uso excessivo de laxantes.

 

Modificação da absorção e / ou eliminação Tomar as plantas pelo menos 1h ou 1h30 antes ou depois do fármaco.

(evitar preparações de plantas com um alto teor de saponinas).

 

Metabolismo lento do fármaco provocando altos níveis do fármaco Tomar as plantas pelo menos 1h ou 1h30 antes ou depois do fármaco.

(preferencialmente tomar primeiro o fármaco, portanto, o metabolismo do fármaco já se iniciou e quando as plantas podiam inibir os sistemas enzimáticos).

 

Diminuição da potência induzida de um fármaco cardíaco, provocando uma condição cardíaca adversa. Evitar qualquer laxante ou diurético forte durante o uso de fármacos cardíacos. Para compensar os efeitos diuréticos ou laxantes moderados das plantas, ingerir alimentos ricos em potássio (bananas, salsa).

 

Intensificação da Acão do fármaco por efeitos semelhantes das ervas (sinérgico) Quando o tratamento farmacológico já aborda um objetivo terapêutico em particular, evitar utilizar plantas com o mesmo objetivo principal. monitorização intensificada da corrente sanguínea afetada pelo fármaco.

 

O fármaco provoca reações adversas que ocorrem com a ingestão de substâncias determinadas Conheça as reações conhecidas e tomar as medidas razoáveis para evitar plantas problemáticas. Pode ser necessário prescindir de uma planta que tenha reação com um fármaco se a interação fora demonstrada

 

interações documentadas das plantas com determinados fármacos. Conheça as reações conhecidas e evitar o uso da combinação de plantas e fármacos.

 

O efeito desejado do fármaco é contrabalançado pelos efeitos das plantas (antagónicos). Se utilizamos plantas que potenciam a imunidade, limitar a dose, para evitar neutralizar os fármacos.

 

As interações entre fitoterapia chinesa e medicamentos são geralmente mal documentadas, embora, atualmente, sejam realizadas cada vez mais pesquisas e investigações neste domínio (http://www.cmjournal.org/). Joe Hing Kwok Chu (4} propõe uma tabela resumo das interações possíveis entre certos fármacos e a fitoterapia chinesa.

Fármacos Plantas medicinais chinesas Explicação
Ampicilina (Omni1lCn. Polycillin. Principen) JIA ZHU TAO

WAN NlAN QING

FU SHOU CAO

A Ampicilina é um inibidor potente de Pseudomonas Aureginosa. Se usado com plantas estimulantes cardíacas Tao Zhu Jia, Wan Nian Qing Fu Shou Cao, podem causar Hipo potassemia e criar toxicidade cardíaca.
Tetraciclinas SHI GAO*

HAN SHUI SHI

HUANG NIU JIE DU PIAN

Estas plantas contêm sulfato de cálcio, que podem ser combinadas com as tetraciclinas e as tornar ineficazes.

 

Compostos de Ferro,

vitamina B1

SHI LIU PI

WE BEI ZI

DA HUANG

DI YU*

HU ZHANG

Estas plantas contêm grande quantidade de ácido tanino e a combinação pode formar sal de tanino.
Hidróxido de

:.1luminio. aminofllina,

bicarbonato de sódio

BAO HE WAN*

LIU WEI DI HUANG WAN*

Os Fármacos são alcalinos e as plantas são ácidas.

 

Aspirina LU RONG

GAN CAO*

Estas plantas junto com a aspirina têm um efeito esteroide pode estimular o revestimento da mucosa do estômago.

 

Corticosteroides REN SHEN Possível intensificação do efeito
Ciclosporina GUAN YE LIAN QIAO

(HIERBA DE SAN JUAN)

Digitalis (y subtipos) ZHEN ZHU MU

LONG GU

SHI GAO*

Estas plantas contêm iões de cálcio e podem aumentar a toxicidade da Digitalis e pode causar arritmia
Digitalis tipo de fármaco GAN CAO* A planta pode aumentar a função do fármaco e podem afetar a função cardíaca
Diuréticos (eliminação de potássio) GAN CAO* A planta tem efeito mineralocorticóide que podem alterar a retenção de sódio e de potássio, pode atuar sobre a expulsão de potássio e causar hipopotassenia.
Eritromicina (Erythromycinu m.Erythrocin.Eryt hrogrJn, Robimycin) CHUAN XIN LIAN A eritromicina pode inibir a função de Chuan Xin Lian na promoção da capacidade de glóbulos brancos do sangue para destruir bactérias.

 

Sulfonamidas MEI WU

SHAN ZHA*

NU ZHEN ZI

WU WEI ZI*

Pode promover um aumento da formação de cristais de ácido úrico
Bicarbonato, rninofilina, teofilina MEI WU

SHAN ZHA*

NU ZHEN ZI

WU WEI ZI*

Reduz a eficácia dos medicamentos citados

 

Varfarina, heparina SHAO CHI

DAN SHEN*

DANG GUI*

E ZHU*

GAN QI

DA SUAN

REN SHEN

BAI GUO, GUO YIN, XING

YIN

HONG HUA*

HU ZHANG

HUANG QIN*

JI XUE TENG*

JIANG HUANG

HONG HUA*

LIU LU TONG

RU XIANG

SAN LENG

SHUI ZHI

SI GUA LUO

SU MU

TAO REN*

BIE TU CHONG

WA LENG ZI

WANG XING BU LIU

WU LING ZHI

XUE JIE

YAN HU SUO

YE JU HUA*

YI MU CAO*

YU JIN*

ZE LAN*

ZANG HONG HUA*

ZI RAN TONG

 

Estas plantas podem aumentar o efeito dos medicamentos anticoagulantes e podem causar sangramento.

 

Fenelzina REN SHEN

MA HUANG

Induz a mania se usado com Fenelzina
Teofilina GUAN YE LIAN QIAO

(HIERBA DE SAN JUAN)

Indinavir (Crixivan) GUAN YE LIAN QIAO

(HIERBA DE SAN JUAN)

A Planta de São João tem sido mostrado para reduzir significativamente os níveis de indinavir (Crixivan) quase 60%
Interferón CHAI HU* Risco de pneumonia intersticial

 

Atropina, a pepsina e outras enzimas digestivas LIU SHEN WAN Contém arsênio, o principal ingrediente Huang Xiong é um dos componentes Shen Liu Wan. O uso com Atropina pode causar a oxidação de Xiong Huang e a toxicidade aumenta, com Shen Liu Wan pode diminuir a eficácia da enzima digestiva.

 

*Substância utilizada em determinadas fórmulas Fitoki

A Coexistência entre fármacos e a fitoterapia chinesa está inerente à evolução dos comportamentos sanitário dos nossos pacientes, que procuram melhorar a sua qualidade de vida, graças à intervenção do terapeuta de Medicina Tradicional Chinesa e da intervenção da biomedicina.

Esta coexistência é parte do sistema de saúde na China e se manifesta no quotidiano das suas consultas hospitalares. Mesmo em muitos casos, utiliza-se a fitoterapia chinesa e medicamentos biomédicos com determinados objetivos terapêuticos, como utilizados para reduzir os efeitos secundários dos medicamentos, melhorar os resultados clínicos nos tratamentos com estes fármacos, para o tratamento de vários aspetos do estado de saúde, etc.

O conhecimento das plantas de medicina chinesa, o senso comum e o conhecimento das interações e modalidades para maneja-las de forma segura e eficaz, abrem-nos novos horizontes promissores para a coexistência de ambas as práticas.

Referências

  1. Subhuti Dharmananda, Ph.D., Diretor, Institute for Traditional Medicine (2000)., Oregon. Disponível em http: //www.itm online.org/ THE INTERACTIONS OF HERBS AND DRUGS, Portland Oregon. Disponível em http://www.itm online.org/ arts/herbdrug.htm. Consultado el 11 de Maio 2011.
  2. Subhuti Dharmananda, Ph.D., Diretor, Institute for Traditional Medicine (2003). CHECKING FOR POSSIBLE HERB-DRUG INTERACTIONS. Portland, Oregon. Disponível em http://www.itm online.org/arts/herbdrug2.htm. Consultado em 11 de Maio 2011.
  3. Subhuti Dharmananda, Ph.D., (1998).  Diretor, Institute for Traditional Medicine (1998). COUNTE- RING THE SIDE EFFECTS OF MODERN MEDICAL THERAPIES WITH CHINESE HERBS. Portland, Oregon.
  4. Joe Hing Kwok Chu. Herbs that are Not Compatible with Certain Drugs [Internet]. Disponível em http://alternativehealing.org/herbs_not_com patible_with_certain_drugs.htm. Consultado em 11 de Maio 2011.
  5. Joe Hing Kwok Chu. Herbs that are Not Compatible with Certain Drugs [Internet]. Disponível em http://alternativehealing.org/herbs_not_com patible_with_certain_drugs.htm. Consultado em 11 de Maio 2011.
  6. Thomas Richard (2006). Aplicação da Farmacopeia tradicional chinesa no tratamento de síndrome Dian Kuang; interações com o diagnóstico de psiquiatria convencional e farmacodinâmica MacOS. Bachelor of Science com honras em chinês tradicional Medicina University of Wales – Ismet. Barcelona.